Artista: Bob Dylan
Nasceu: 24/05/1941, Duluth, MN, United States
Atualmente: Malibu, CA, United States
Gravadora: Columbia
Produção: Bob Dylan
Lançamento: 20/01/1975
Generos: Singer/Songwriter, Folk Rock
Contemporary Folk, Blues Rock
Pessoal: Bob Dylan (voz guitarra, gaita, órgão e mandolim); Billy Peterson (baixo); Eric Weissberg (banjo); Buddy Cage (steel guitar); Richard Crooks (bateria); Paul Griffin (órgão e teclados).
Título - Duração
Compositor [Performance]
A1 Tangled Up in Blue 5:40
Bob Dylan [Bob Dylan]
A2 Simple Twist of Fate 4:18
Bob Dylan [Bob Dylan]
A3 You're a Big Girl Now 4:36
Bob Dylan [Bob Dylan]
A4 Idiot Wind 7:45
Bob Dylan [Bob Dylan]
A5 You're Gonna Make Me Lonesome When You Go 2:58
Bob Dylan [Bob Dylan]
B1 Meet Me in the Morning 4:19
Bob Dylan [Bob Dylan]
B2 Lily, Rosemary and the Jack of Hearts 8:50
Bob Dylan [Bob Dylan]
B3 If You See Her, Say Hello 4:46
Bob Dylan [Bob Dylan]
B4 Shelter From the Storm 4:59
Bob Dylan [Bob Dylan]
B5 Buckets of Rain 3:29
Bob Dylan [Bob Dylan]
Blood on the Tracks é o décimo quinto álbum de estúdio do cantor Bob Dylan, lançado a 17 de Janeiro de 1975. Este álbum está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.
Este disco marca o regresso à gravadora Columbia Records, depois de editar dois álbuns com a Asylum Records. Alguns anos depois, as críticas disseram que se tratava de um dos melhores discos do cantor.
A maioria das letras do álbum gira em torno de mágoa, raiva e solidão. As músicas que compõem Blood on the Tracks são vistas pela maioria dos biógrafos de Dylan como tendo sido inspirado por sua turbulência pessoal na época, particularmente sua separação de sua então esposa Sara Dylan. Embora Dylan tenha negado que que as canções são autobiográficas, seu filho Jakob Dylan afirmou: "As canções são meus pais falando". Este é o primeiro lançamento após sua separação com a esposa Sara. O material contido representa o seu período mais romântico, nos brindando com uma coleção de letras das mais poéticas, mesmo que melancólicas e tristonhas. Indiscutivelmente o seu melhor disco depois da década de sessenta e possivelmente um dos cinco melhores de toda sua carreira.
Devido a popularidade duradoura do álbum, Dylan mais tarde veio a dizer (em entrevista a uma rádio por Mary Travers):.. "Muitas pessoas me dizem que desfrutam desse álbum. É difícil para mim se relacionar com isso, quero dizer, as pessoas apreciando esse tipo de dor, sabe? "Ao falar sobre a forma como o álbum parece falar da própria dor pessoal do artista, Dylan respondeu que ele não escreveu "canções confessionais".
As referências a Sara que Dylan fazia eram sempre de alta devoção, inclusive inspirando-o em canções como “Sad-Eyed Lady of the Lowlands”, “Love Minus Zero/No Limit” e “Sara”.
Em Blood on the Tracks, independentemente de qual seja a temática da música, é possível ver no álbum inteiro o registro de um homem perturbado. Bob vê a instituição que mais valorizava, seu próprio casamento, ruir e não sabe qual caminho tomar.
Depois de experimentar a felicidade plena e expressando-a principalmente no disco New Morning, os esforços de Dylan para salvar seu casamento começam em Planet Waves. Neste disco de 74 já é possível ouvir o desespero, que trazia junto até uma aceitável contradição, e que alcançaria seu ápice em Blood on the Tracks e ecoaria também em Desire.
Sara e Bob se divorciaram em julho de 1977.
Com a data de lançamento marcada para o começo de janeiro, os registros ocorridos em New York seriam a versão final do disco. Porém, durante as festas de fim de ano, Bob Dylan foi até Minneapolis para ficar com sua família e mostrou o disco para seu irmão mais novo, David. Ao ouvi-lo, o caçula não gostou; achou as músicas muito parecidas e que sua venda seria baixa por conta da atmosfera monótona.
David, que era produtor de bandas locais e jingles, levou Bob até o Studio 80 e nos dias 27 e 30 de dezembro Dylan gravou com músicos convidados pelo irmão. Além de regravar 6 das 10 músicas de Blood on the Tracks, Bob reescreveu algumas. Entre as músicas com mais mudanças estão “If You See Her, Say Hello”, “Tangled Up in Blue” e principalmente “Idiot Wind”, cujas alterações deixaram a música significativamente menos pessoal.
Blood on the Tracks foi lançado no dia 17 de janeiro de 1975 e recebeu ótimas críticas. Muitos acharam que era o melhor trabalho de Dylan desde sua reclusão em Woodstock, e vários o destacaram, mesmo ainda no meio da década, como o melhor disco dos anos 70.
Tangle up in blues (Emaranhado na fossa) abre o álbum com a ironia daqueles que escolhem o abandono à própria sorte depois de uma decepção amorosa. Cenas dignas de um romance de William Faulkner, como As palmeiras Selvagens, contam a história de dois amantes que buscam um amor idílico e impossível, fugindo de casamentos mal-sucedidos, convenções sociais hipócritas, mas que descobrem que seu relacionamento não pode dar certo. Idas e vindas marcam a faixa, terminando com um encontro amargo e um desabafo marcante. É a canção de maior sucesso do álbum. Sobre a música, Bob já afirmou: “demorei 10 anos para vivê-la e 2 anos para compô-la”.
Simple Twist of fate (Simples mudança do destino). A canção não diz claramente, mas é a história de um homem tímido que resolve passar a noite com uma prostituta e se apaixona por ela (é o que dá para entender): “Ele escutou o tic-tac do relógio/(…)Procurou-a lá no cais do porto/Onde os marinheiros chegavam/Talvez ela o escolha novamente/Mas quanto tempo ele terá de esperar/por outra simples mudança do destino?”. Clinton Heylin, que teve acesso ao caderno em que Dylan escreveu todas as canções do disco, diz que esta canção tinha o nome temporário de “Fourth Street Affair” (possível referência ao endereço que Bob viveu com Suze Rotolo nos anos 60). Assim, Heylin acha que, da mesma forma que o término do relacionamento com Suze inspirou o cantor a escrever uma ode a um antigo amor, em “Girl From the North Country” Sara poderia ter incitado-o a lembrar de sua relação com Rotolo.
You’re a big girl now (Você é uma garota amadurecida agora) parece ensaiar o que aconteceria num reencontro do casal da primeira música, quando as coisas estão mais amenas entre ambos e o remorso e a mágoa não estão mais em cena. Uma versão de New York é incrivelmente emotiva. Porém, Dylan preferiu a versão de Minneapolis para incluir no disco (com ele fazendo os floreios “flamencos” no violão). De qualquer forma, é impossível não se envolver com o sofrimento de Bob, principalmente nas frases finais: “I’m going out of my mind/ With a pain that stops and starts/ Like a corkscrew to my heart/ Ever since we’ve been apart”.
Em Idiot Wind (Boatos idiotas, ou Vento idiota), ao contrário do clima harmonioso que acontece em "You’re a big girl now", Dylan expressa de forma clara e muito sentimental as acusações comuns que dormem sob o tapete empoeirado da cabana em ruínas que só um relacionamento conturbado e mal terminado pode deixar de herança a quem tenta sobreviver a ele. Sob o vórtice violento de um animal acuado que quer se defender Dylan grita frases como “Tua boca está mudada, teus olhos não podem tocar nos meus”, “Não posso nem tocar as roupas que você usou”, ou “Vento idiota sai da tua boca toda vez que você mexe a mandíbula”. Um despertar epiléptico da mágoa e do ressentimento. Prepare o estômago para ouvir… ou o coração, caso você esteja tentando juntar os seus pedacinhos.
You’re gonna make me lonsome when you go (Você vai me deixar solitário quando se for) é a mais poética das canções, abusando das metáforas. Jogos de imagens contraditórias, cenas distorcidas e desabafos de quem diz a si próprio “Eu sabia que tudo ia terminar assim”. Alguém para quem o amor foi uma sucessão de casos superficiais que nunca terminaram bem, mas descobrira um caso mais profundo (seu relacionamento com Sarah). Parece estar resignado com o desfecho de seu casamento e termina um pouco otimista: “Você vai me deixar eu sei/Mas te verei no céu acima/sobre a grama alta, com aqueles que eu amo/ Você vai me deixar solitário quando se for”. Indícios (como as cidades citadas) indicam que a música é para Ellen Bernstein. Apesar de Dylan parecer ter investido neste relacionamento, Ellen nunca quis algo mais sério. A canção parece ser cantada por um homem feliz, mas há toques melancólicos, como a comparação com o relacionamento tumultuado de Rimbaud e Verlaine.
Meet me in the morning (Encontre-me de manhã) é um blues desapegado que poderia muito bem ter sido composto por Muddy Waters. Oliver Trager a vê como a melhor performance vocal de Dylan no disco. A participação de Buddy Cage no pedal steel foi marcada por uma atitude agressiva, com Bob sendo ríspido ao explicar a Cage como tocar. No fim, o músico percebeu que era apenas uma brincadeira de Dylan para forçá-lo a dar seu máximo.
Lilly, Rosemary and the Jack of Hearts vem no melhor estilo folk, Dylan conta a história de personagens em um cabaré, esperando pela sorte de tirar um Jack of Hearts (Valete de copas) num jogo de cartas. O que também significaria uma aposta no amor durante a espera de quem alguém salvaria seu coração solitário – aposta, porém, sempre mal sucedida. É uma das mais longas fábulas de Dylan, que se desenrola como um jogo de cartas”. São 15 estrofes que relatam, com a linguagem pós-Raeben, um triângulo amoroso seguido de morte. Na gravação, depois de Bob ensaiar por apenas dois ou três minutos, David Zimmerman (o irmão de Dylan e que, como vimos, foi uma figura importantíssima na construção de Blood on the Tracks) deu a dica aos músicos: “Quando vocês pensarem que a canção acabou, ela não acaba. Apenas continuem tocando. É uma longa música”.
As três últimas faixas fecham o disco com a força soturna que marca definitivamente a experiência do ouvinte: If you see her, say hello (Se você a vir, diga olá ) fala com saudosismo da amante e o respeito que o abandonado nutre pela sua musa, que busca a dignidade em querer “se manter livre”. A versão do disco é arrastada, sensível, mas menos intensa que outra versão feita em New York. Impossível não sentir compaixão ao ouvir: “Either I’m too sensitive or else I’m gettin’ soft”.
Shelter from the storm (Abrigo da tempestade) é uma balada diminuta que rebaixa o homem como um ser frágil e selvagem, que só consegue humanismo possível com a proteção e a presença da mulher. Apenas três acordes são necessários para descrever o estado tempestuoso em que o narrador se encontra. Porém, a letra e a intepretação de Dylan vão além. Muito além: “I bargained for salvation and they gave me a lethal dose/ I offered up my innocence and got repaid with scorn”.
E, por fim, a belíssima, devastadora e hiperbólica Buckets of rain (Baldes de chuva), pela qual o ouvinte não guarda outro gosto que não o da amargura depois de ouvir esse disco. A música foi Inspirada na melodia de “Bottle of Wine”, de Tom Paxton.
Blood on the tracks é o disco mais pessoal de Bob Dylan, o mais intimista. Há até certa história de bastidores que em resposta a uma entrevista da cantora Joni Mitchel (a rainha dos corações partidos) que, ao elogiar o disco, disse que nunca havia se divertido tanto ao ouvir o álbum, Dylan disse: “É incrível ouvir que alguém se divertiu com algo pelo qual você sofreu tanto para fazer”.
Este é um dos registros do cantor de maio sucesso em termos de vendas, tendo sido certificado nos Estados Unidos com Dupla Platina e chegou a posição nº 1 na Billboard EUA 200.
Em 2003 a revista Rolling Stone classificou este álbum na 16ª posição em sua lista dos 500 melhores álbuns de sempre e, no mesmo ano, classificou a música "Tangled Up In Blue" na posição 68ª em sua lista das maiores canções de todos os tempos (500 Greatest Songs of All Time).
Este álbum é mencionado no livro de referência musical "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer", lançado em 2007.
Tradução de todas as faixas: vale a pena conferir.
http://whiplash.net/materias
Este disco marca o regresso à gravadora Columbia Records, depois de editar dois álbuns com a Asylum Records. Alguns anos depois, as críticas disseram que se tratava de um dos melhores discos do cantor.
A maioria das letras do álbum gira em torno de mágoa, raiva e solidão. As músicas que compõem Blood on the Tracks são vistas pela maioria dos biógrafos de Dylan como tendo sido inspirado por sua turbulência pessoal na época, particularmente sua separação de sua então esposa Sara Dylan. Embora Dylan tenha negado que que as canções são autobiográficas, seu filho Jakob Dylan afirmou: "As canções são meus pais falando". Este é o primeiro lançamento após sua separação com a esposa Sara. O material contido representa o seu período mais romântico, nos brindando com uma coleção de letras das mais poéticas, mesmo que melancólicas e tristonhas. Indiscutivelmente o seu melhor disco depois da década de sessenta e possivelmente um dos cinco melhores de toda sua carreira.
Devido a popularidade duradoura do álbum, Dylan mais tarde veio a dizer (em entrevista a uma rádio por Mary Travers):.. "Muitas pessoas me dizem que desfrutam desse álbum. É difícil para mim se relacionar com isso, quero dizer, as pessoas apreciando esse tipo de dor, sabe? "Ao falar sobre a forma como o álbum parece falar da própria dor pessoal do artista, Dylan respondeu que ele não escreveu "canções confessionais".
As referências a Sara que Dylan fazia eram sempre de alta devoção, inclusive inspirando-o em canções como “Sad-Eyed Lady of the Lowlands”, “Love Minus Zero/No Limit” e “Sara”.
Em Blood on the Tracks, independentemente de qual seja a temática da música, é possível ver no álbum inteiro o registro de um homem perturbado. Bob vê a instituição que mais valorizava, seu próprio casamento, ruir e não sabe qual caminho tomar.
Depois de experimentar a felicidade plena e expressando-a principalmente no disco New Morning, os esforços de Dylan para salvar seu casamento começam em Planet Waves. Neste disco de 74 já é possível ouvir o desespero, que trazia junto até uma aceitável contradição, e que alcançaria seu ápice em Blood on the Tracks e ecoaria também em Desire.
Sara e Bob se divorciaram em julho de 1977.
Com a data de lançamento marcada para o começo de janeiro, os registros ocorridos em New York seriam a versão final do disco. Porém, durante as festas de fim de ano, Bob Dylan foi até Minneapolis para ficar com sua família e mostrou o disco para seu irmão mais novo, David. Ao ouvi-lo, o caçula não gostou; achou as músicas muito parecidas e que sua venda seria baixa por conta da atmosfera monótona.
David, que era produtor de bandas locais e jingles, levou Bob até o Studio 80 e nos dias 27 e 30 de dezembro Dylan gravou com músicos convidados pelo irmão. Além de regravar 6 das 10 músicas de Blood on the Tracks, Bob reescreveu algumas. Entre as músicas com mais mudanças estão “If You See Her, Say Hello”, “Tangled Up in Blue” e principalmente “Idiot Wind”, cujas alterações deixaram a música significativamente menos pessoal.
Blood on the Tracks foi lançado no dia 17 de janeiro de 1975 e recebeu ótimas críticas. Muitos acharam que era o melhor trabalho de Dylan desde sua reclusão em Woodstock, e vários o destacaram, mesmo ainda no meio da década, como o melhor disco dos anos 70.
Tangle up in blues (Emaranhado na fossa) abre o álbum com a ironia daqueles que escolhem o abandono à própria sorte depois de uma decepção amorosa. Cenas dignas de um romance de William Faulkner, como As palmeiras Selvagens, contam a história de dois amantes que buscam um amor idílico e impossível, fugindo de casamentos mal-sucedidos, convenções sociais hipócritas, mas que descobrem que seu relacionamento não pode dar certo. Idas e vindas marcam a faixa, terminando com um encontro amargo e um desabafo marcante. É a canção de maior sucesso do álbum. Sobre a música, Bob já afirmou: “demorei 10 anos para vivê-la e 2 anos para compô-la”.
Simple Twist of fate (Simples mudança do destino). A canção não diz claramente, mas é a história de um homem tímido que resolve passar a noite com uma prostituta e se apaixona por ela (é o que dá para entender): “Ele escutou o tic-tac do relógio/(…)Procurou-a lá no cais do porto/Onde os marinheiros chegavam/Talvez ela o escolha novamente/Mas quanto tempo ele terá de esperar/por outra simples mudança do destino?”. Clinton Heylin, que teve acesso ao caderno em que Dylan escreveu todas as canções do disco, diz que esta canção tinha o nome temporário de “Fourth Street Affair” (possível referência ao endereço que Bob viveu com Suze Rotolo nos anos 60). Assim, Heylin acha que, da mesma forma que o término do relacionamento com Suze inspirou o cantor a escrever uma ode a um antigo amor, em “Girl From the North Country” Sara poderia ter incitado-o a lembrar de sua relação com Rotolo.
You’re a big girl now (Você é uma garota amadurecida agora) parece ensaiar o que aconteceria num reencontro do casal da primeira música, quando as coisas estão mais amenas entre ambos e o remorso e a mágoa não estão mais em cena. Uma versão de New York é incrivelmente emotiva. Porém, Dylan preferiu a versão de Minneapolis para incluir no disco (com ele fazendo os floreios “flamencos” no violão). De qualquer forma, é impossível não se envolver com o sofrimento de Bob, principalmente nas frases finais: “I’m going out of my mind/ With a pain that stops and starts/ Like a corkscrew to my heart/ Ever since we’ve been apart”.
Em Idiot Wind (Boatos idiotas, ou Vento idiota), ao contrário do clima harmonioso que acontece em "You’re a big girl now", Dylan expressa de forma clara e muito sentimental as acusações comuns que dormem sob o tapete empoeirado da cabana em ruínas que só um relacionamento conturbado e mal terminado pode deixar de herança a quem tenta sobreviver a ele. Sob o vórtice violento de um animal acuado que quer se defender Dylan grita frases como “Tua boca está mudada, teus olhos não podem tocar nos meus”, “Não posso nem tocar as roupas que você usou”, ou “Vento idiota sai da tua boca toda vez que você mexe a mandíbula”. Um despertar epiléptico da mágoa e do ressentimento. Prepare o estômago para ouvir… ou o coração, caso você esteja tentando juntar os seus pedacinhos.
You’re gonna make me lonsome when you go (Você vai me deixar solitário quando se for) é a mais poética das canções, abusando das metáforas. Jogos de imagens contraditórias, cenas distorcidas e desabafos de quem diz a si próprio “Eu sabia que tudo ia terminar assim”. Alguém para quem o amor foi uma sucessão de casos superficiais que nunca terminaram bem, mas descobrira um caso mais profundo (seu relacionamento com Sarah). Parece estar resignado com o desfecho de seu casamento e termina um pouco otimista: “Você vai me deixar eu sei/Mas te verei no céu acima/sobre a grama alta, com aqueles que eu amo/ Você vai me deixar solitário quando se for”. Indícios (como as cidades citadas) indicam que a música é para Ellen Bernstein. Apesar de Dylan parecer ter investido neste relacionamento, Ellen nunca quis algo mais sério. A canção parece ser cantada por um homem feliz, mas há toques melancólicos, como a comparação com o relacionamento tumultuado de Rimbaud e Verlaine.
Meet me in the morning (Encontre-me de manhã) é um blues desapegado que poderia muito bem ter sido composto por Muddy Waters. Oliver Trager a vê como a melhor performance vocal de Dylan no disco. A participação de Buddy Cage no pedal steel foi marcada por uma atitude agressiva, com Bob sendo ríspido ao explicar a Cage como tocar. No fim, o músico percebeu que era apenas uma brincadeira de Dylan para forçá-lo a dar seu máximo.
Lilly, Rosemary and the Jack of Hearts vem no melhor estilo folk, Dylan conta a história de personagens em um cabaré, esperando pela sorte de tirar um Jack of Hearts (Valete de copas) num jogo de cartas. O que também significaria uma aposta no amor durante a espera de quem alguém salvaria seu coração solitário – aposta, porém, sempre mal sucedida. É uma das mais longas fábulas de Dylan, que se desenrola como um jogo de cartas”. São 15 estrofes que relatam, com a linguagem pós-Raeben, um triângulo amoroso seguido de morte. Na gravação, depois de Bob ensaiar por apenas dois ou três minutos, David Zimmerman (o irmão de Dylan e que, como vimos, foi uma figura importantíssima na construção de Blood on the Tracks) deu a dica aos músicos: “Quando vocês pensarem que a canção acabou, ela não acaba. Apenas continuem tocando. É uma longa música”.
As três últimas faixas fecham o disco com a força soturna que marca definitivamente a experiência do ouvinte: If you see her, say hello (Se você a vir, diga olá ) fala com saudosismo da amante e o respeito que o abandonado nutre pela sua musa, que busca a dignidade em querer “se manter livre”. A versão do disco é arrastada, sensível, mas menos intensa que outra versão feita em New York. Impossível não sentir compaixão ao ouvir: “Either I’m too sensitive or else I’m gettin’ soft”.
Shelter from the storm (Abrigo da tempestade) é uma balada diminuta que rebaixa o homem como um ser frágil e selvagem, que só consegue humanismo possível com a proteção e a presença da mulher. Apenas três acordes são necessários para descrever o estado tempestuoso em que o narrador se encontra. Porém, a letra e a intepretação de Dylan vão além. Muito além: “I bargained for salvation and they gave me a lethal dose/ I offered up my innocence and got repaid with scorn”.
E, por fim, a belíssima, devastadora e hiperbólica Buckets of rain (Baldes de chuva), pela qual o ouvinte não guarda outro gosto que não o da amargura depois de ouvir esse disco. A música foi Inspirada na melodia de “Bottle of Wine”, de Tom Paxton.
Blood on the tracks é o disco mais pessoal de Bob Dylan, o mais intimista. Há até certa história de bastidores que em resposta a uma entrevista da cantora Joni Mitchel (a rainha dos corações partidos) que, ao elogiar o disco, disse que nunca havia se divertido tanto ao ouvir o álbum, Dylan disse: “É incrível ouvir que alguém se divertiu com algo pelo qual você sofreu tanto para fazer”.
Este é um dos registros do cantor de maio sucesso em termos de vendas, tendo sido certificado nos Estados Unidos com Dupla Platina e chegou a posição nº 1 na Billboard EUA 200.
Em 2003 a revista Rolling Stone classificou este álbum na 16ª posição em sua lista dos 500 melhores álbuns de sempre e, no mesmo ano, classificou a música "Tangled Up In Blue" na posição 68ª em sua lista das maiores canções de todos os tempos (500 Greatest Songs of All Time).
Este álbum é mencionado no livro de referência musical "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer", lançado em 2007.
Tradução de todas as faixas: vale a pena conferir.
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César CPO
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